SUPLÍCIO DE UMA LUTA: MARCHA DE GOIÂNIA À BRASÍLIA EM 2003

Resolvemos publicizar este diário para contextualizar como, com o final de dois mandatos do governo Lula, o suplício pela reforma agrária continua. Tendo em vista que o Terra Livre publicou um balanço dos dois mandato do Lula com o título “Lula, a canetada e a não reforma agrária”, o diário de Valdeme vem corroborar com nosso balanço: tanto com a expectativa, quanto com o compromissos que não foram cumpridos por Lula. A marcha foi um momento importante e o companheiro conseguiu ao seu modo fazer uma análise política da marcha com detalhes de um militante da reforma agrária. Com um olhar para as coisas do dia a dia que muito de nós, que estávamos nas instâncias máximas de comando da marcha, passaram despercebidas, enquanto companheiros como Valdeme, que estavam nos comandos intermediários da marcha, conseguiram captar. Após a marcha de 2003, no ano de 2006  o MTL rachou, criamos o Terra Livre e, boa parte dos(as) companheiros(as) que participaram da marcha vieram para o Terra Livre.

Introdução: Sangue e Suor e Lagrima na Luta por um Pedaço de Chão

Pedro Ferreira Nunes

Militante do Movimento Terra Livre

Em outubro de 2003, dois mil trabalhadores, sem terras de vários cantos do Brasil, partiram de Goiânia rumo a Brasília tendo como objetivo pressionar o presidente Lula a aplicar o II Plano Nacional de Reforma agrária que propunha assentar um milhão de famílias até 2006.

Homens, mulheres, jovens e crianças, todos rumo à capital federal em busca de um sonho, um pedaço de chão. Sob o sol escaldante do centro-oeste brasileiro, dispostos a percorrer os 250 km que separam Goiânia de Brasília. Com sangue e suor, enfrentando muitas privações, como o preconceito de muitos que não entendem a luta e a falta de apoio de muitas autoridades.

Mas esse povo sofrido que aprendeu a viver enfrentando as mais diversas privações, nas margens das rodovias, debaixo das barracas de lona preta, mostrando as veias aberta de um país desigual, não iria desistir e também encontrou muitas vozes de incentivo para que continuasse em frente. Pois sabiam que aquelas duas mil pessoas não estavam apenas em busca de um pedaço de terra, mas, sobretudo de um país justo, igualitário e soberano.

“Suplício de uma luta” é um relato de um dos dois mil sem terras que enfrentaram essa jornada, que mostra as aventuras e desventuras enfrentadas por todos. De uma forma simples, relata desde a falta de comida e a dificuldade em tomar um banho até os acidentes nas margens da rodovia e as situações cômicas.

Também relata os momentos de emoção e felicidade, o encontro de um pai com uma filha que nunca conhecera os amores que nasciam os apoios que recebiam a chegada à Brasília e o encontro com o presidente Lula.

Desde então, passaram-se oito anos de governo Lula e a reforma agrária não saiu do papel. Algumas concessões foram feitas, no entanto os sem terras não têm o que comemorar apenas o agronegócio comemora com o governo Lula. Milhares de famílias continuam acampados nas margens das rodovias esperando o seu quinhão de chão.

Valdeme Noberto de Faria, autor desse diário, conseguiu o seu pedaço de chão, mora hoje no assentamento Sonho Real, em Caçu/GO. Muitos outros também foram assentados, outros tantos desistiram devido à lentidão e outros esperam ser assentados.

A reforma agrária, ao contrário do que a direita reacionária prega, não é inviável e nem ultrapassada, ela é possível e imprescindível tanto para democratização do acesso à terra e pela produção de alimentos saudáveis, quanto pela preservação do meio ambiente. No entanto, como diz Plínio de Arruda Sampaio: “Ou o povo impõe uma reforma agrária ao governo, ou o governo não fará uma reforma agrária”.

Marchar e Vencer

Ademar Bogo

Abriu-se para nós

Nesta fresta de tempo ao fim do século

A possibilidade de dizer:

Que fome, miséria e tirania não são heranças

Heranças são as obras, sãos os feitos, são os sonhos

Desenhados pelos pés dos velhos caminhantes

Que plantaram na história sementes de esperança

E nos legaram a tarefa de fazer

Através da luta, o caminho de vencer.

Marchar é mais do que andar

É traçar com os passos

Roteiro que nos leva à dignidade sem lamentos.

As fileiras como cordões humanos

Mostram os sinais dos rastros perfilados

Dizendo em seu silêncio

Que é preciso despertar

E colocar em movimento

Milhões de pés sofridos, humilhados em todo o tempo

Sem temer tecer a liberdade.

E nessas marcas de bravos lutadores

Iniciamos a edificação de novos seres construtores

De um projeto que nos levará à nova sociedade.

Marchamos por saber que em cada coração há uma esperança

Há uma chama despertada em cada peito

E a mesma luz é que nos faz seguir em frente

E tecer a história assim de nosso jeito.

A dor, a fome, a miséria e a opressão não são eternas

Eternos são os sonhos, a beleza e a solidariedade

Por estarem ao longo do caminho de quem anda

Em busca da utopia nas asas da liberdade.

As marchas alimentam grandes ideais

Porque grande é o sonho de cada caminhante

Que faz nascer do pranto a alegria

Da ignorância a sabedoria

E das derrotas vitórias triunfantes.

Venham todos! – Dizem nossas bandeiras

Que se balançam como chamas nas fogueiras

E queimam as consciências de nossos inimigos

Que fazem da pátria galhos onde se aninham

Abutres que comem:

Das fábricas os empregos,

Dos hospitais os remédios e a saúde

Das escolas as letras que educariam a juventude,

E da terra o direito de viver a liberdade.

Assim a pátria passa ser de propriedade

Privada, escravizada e obrigada

A entregar aos filhos logo ao nascer

A incerteza de passar o dia e não ver o anoitecer.

Marchar se faz necessário

Para espantar os abutres desta estrada

E construir sem medo o amanhecer.

Pois, se eternos são os sonhos

Eterna também é a certeza de vencer

Suplício de uma luta: Diário da Marcha de Goiânia a Brasília

Valdeme Norberto de Faria

São por volta das 10hs do dia 08 de outubro de 2003, quando nós do acampamento Beira Rio e do acampamento Orlando Rezende que ficam no município de Jataí/Goiás, recebemos a notícia de que aqueles que fossem voluntários iriam participar de uma marcha de trabalhadores sem terras de Goiânia à Brasília, uma turma nossa topou, no final desse relato deixarei um espaço para colocar o nome dos companheiros.

Ficamos na maior expectativa, arrumamos nossas coisas e ficamos pronto para pegar o ônibus que viria no buscar no dia seguinte e que nos levaria até Goiânia onde começaria nosso suplício, mas com muita alegria.

No dia 09 de outubro, por volta das 11hs, o ônibus que viera nos buscar chegara ao acampamento, aí foi aquele corre-corre, aqueles que deixaram tudo para última hora não estavam prontos, outros tinham que ir até a cidade pegar algumas coisas. Era um sobe e desce no acampamento Beira Rio, a turma do Orlando Rezende já estava no ônibus, pois este tinha passado antes por lá.

Por volta do meio dia partimos com destino a Goiânia aonde chegaríamos por volta das 17hs. Em Goiânia ficamos acampados no estádio Serra Dourada, quando lá chegamos senti uma emoção especial, pois foi uma surpresa ver tantos trabalhadores unidos. Lá nos unimos com outros movimentos: MTL (do qual faço parte, éramos nós de Goiás e a turma de Minas Gerais), o MST, a FETAEG, o MAB, a CONTAG, o MPA, o MMTR e a Via Campesina. Ao final explicarei o significado dessas siglas.

A noite foi um tumulto, mas com o passar do tempo tudo foi se organizando até prevalecer a calma, o silêncio da noite era cortado pelas pessoas caminhando de um lado a outro, essas não conseguiram dormir nem um pouco. Nesta mesma noite começou um romance entre dois companheiros nossos. Não vou revelar os nomes por enquanto, quem sabe se ao final da marcha, se isto se tornar de fato um namoro, aí não mais guardarei segredo, vou revelar os nomes e se haverá casamento.

10 de Outubro – Primeiro dia de Marcha

Na manhã seguinte, por volta das 4hs da madrugada começou tudo de novo, era gente gritando, outros cantando, uns querendo café e outros apenas para fazer barulho. Começou novamente o arruma-arruma de coisas, enquanto uns enrolavam colchões outros andavam de um lado para o outro. Todos falavam ao mesmo tempo, não dava para entender nada, era uma bagunça só, mas todos prosseguiam na maior animação.

Apesar da noite mal dormida todos estavam animados para o início da nossa grande jornada, que com certeza não seria tão fácil. Eu particularmente estava cansado pela noite mal dormida, mas contente por fazer parte dessa marcha. Às 8hs da manhã saímos em duas filas em marcha rumo à prefeitura de Goiânia, onde assistiríamos a um ato político.

No ato político discursou o prefeito de Goiânia, senhor Pedro Wilson (PT), o presidente nacional do PT, José Genuíno, o coordenador nacional do MTL, Barrozinho, o presidente da CPT, Dom Tomaz Balduíno, a deputada estadual Izaura Lemos (PDT) e o coordenador nacional do MST, Valdir.

Às 10hs da manhã tomamos um lanche, leite e alguns bolinhos que não deu para todos, infelizmente. Novamente fizemos duas filas e partimos em marcha rumo à Brasília, neste momento me separei dos meus companheiros de movimento e fui para frente da fila levando a bandeira do MTL.

Apesar do calor, tudo estava indo bem até a saída de Goiânia, foi quando uma adolescente atravessou no meio da fila com a intenção de atravessar a pista, mas foi colhida por um carro que vinha nos ultrapassando e jogou ela no meio do canteiro central da rodovia. Nós que íamos à frente, levando a bandeira do fórum nacional de reforma agrária, corremos para ver se a menina não tinha se machucado muito, nos descuidamos um pouco da fila, que não parou e passou à frente da bandeira.

Muitos jovens iam à frente e muitas pessoas com mais idade nos grupos de trás, os jovens puxaram o ritmo da marcha e não conseguimos mais controlar a velocidade e, como estava muito quente, os mais velhos foram ficando para trás. Como estou com mais de 40 anos não agüentei o ritmo acelerado da juventude. Muitas pessoas começaram a passar mal, precisando do apoio da ambulância que nos acompanhava e também demos muito trabalho aos carros de apoio. Como a distância para o almoço era muito longa e o calor estava muito, só chegamos ao local do almoço por volta das 15hs.

Daquelas duas filas iniciais ficou apenas uma bagunça de gente, uns atrás dos outros transformando nossa marcha em uma bagunça caminhando pela rodovia, nem a polícia nos acompanhava mais. Almoçamos e ainda faltavam mais ou menos 12 km para serem percorridos. Todos nós estávamos arrebentados, mas, mesmo assim, saímos novamente, na mesma caminhada bagunçada de antes. As pessoas foram caindo pelo caminho, dobrando o trabalho tanto da ambulância quanto dos carros de apoio, quando já era quase noite alguns companheiros meus, minha esposa e eu fomos resgatados por um caminhão que nos levou até Teresópolis de Goiás, onde iríamos passar a noite.

Quando lá chegamos fomos informados que teríamos que ir para outro local com nossas coisas, tinha que andar apenas duas quadras, era pertinho, mas para nós seria um sacrifício. Lá chegando minha esposa arrumou nosso colchão e então começou a batalha para tomar banho. Os que chegaram primeiro conseguiram tomar banho, depois a água acabou, os outros tiveram que ir a um ribeirão próximo dali. Terminado a luta para tomar banho, todos deitaram para repor as energias, pois nossa marcha só estava começando, faltava muito para percorrermos e todos nós sabíamos que haveria muito sofrimento pela frente com muita dor nos pés, mas logo depois todos estavam dormindo tranquilamente.

11 de outubro – Segundo dia de Marcha

Às 4:30 da madrugada começou novamente o arruma-arruma de coisas, era colchões sendo enrolado e gente andando de um lado a outro tentando lavar o rosto. Uns trocavam de banheiro, homens indo para os banheiros das mulheres e mulheres entrando no banheiro dos homens, mas tudo terminou bem, só faltava a marcha começar. Neste dia era a vez do MTL coordenar a marcha, mas um pessoal apressadinho queria sair à frente da bandeira, só que os coordenadores da turma conseguiram pará-los antes que os mesmos chegassem à BR 153. Nós fomos com a bandeira do fórum de reforma agrária na frente, logo atrás as bandeiras dos movimentos, eram oito no total. Conseguimos impor uma toada lenta, a qual todos seguiram, andamos uns 6 km e paramos em um posto de combustível para tomarmos café da manhã. Tomamos leite e comemos pão com manteiga, paramos por mais 15 minutos, depois formamos duas filas e seguimos novamente, tudo organizado. Andamos até por volta das 10:30 foi quando chegamos em um acampamento do MST – que, aliás, temos que elogiar, tudo muito organizado, tudo muito limpinho com hortaliças por todos os lados.

Ficamos no acampamento até as 14:30, quando chegou o almoço. Ainda estávamos almoçando quando o pessoal apressadinho começou a sair na frente, saímos então em duas filas tentando segurar os apressados, coisa que não conseguimos, mas seguimos a turma de trás em fila. Nós íamos ocupando meia pista da rodovia, tudo estava normal até quase chegando a Anápolis, onde íamos passar a noite. Nesse local um carro veio de encontro a um dos nossos seguranças, porém somente o retrovisor acertou o seu braço, arrancando o retrovisor e deixando o companheiro com uma grande dor.

Enfim chegamos a Anápolis, a polícia local tentou nos empurrar para uma estradinha cheia de mato, nos desviamos pela estradinha, até passar o trevo e voltamos para o asfalto. A polícia nos barrou novamente tentando nos empurrar para o mato com ameaça de prisão dos companheiros, mas atravessamos novamente a pista e pegamos novamente meia pista. A polícia continuou nos ameaçando até que nos empurrou para uma pista lateral só cascalhada, como nossos pés estavam cheios de bolhas, confesso que para nós foi um grande sofrimento, mas, como nossa luta é feita de dor e sacrifício, continuamos andando, mesmo com muita dor nos pés. Chegamos então ao ginásio onde parte de nós passaria a noite.

Nosso grupo pegou as coisas, subiu em um caminhão e fomos para um estádio municipal onde ficaríamos durante a noite e descansaríamos no dia seguinte. Isto foi muito bom, porque meus pés estavam saindo o couro e já quase não agüentava pisar direito no chão devido à dor. Quando eu estava sentando no meu colchão, lá vinha sofrimento, um dos coordenadores chamou-me para uma reunião. Lá fomos mancando, porque nós éramos o grupo dos “mancos”, mas não era deficiência, era cansaço. Fomos então assistir a reunião que durou cerca de 30 minutos, mas para mim durou uma eternidade ficar ali de pé, não reclamo da reunião e sim da dor nos pés.

Aconteceu algo na reunião que me deixou muito contente, apesar da dor nos pés tive vontade de pular de alegria. Neste dia minha querida companheira estava aniversariando, uma companheira lembrou e a chamou ao carro de som para que recebesse os parabéns, lá na frente ela quase chorou de emoção, isso para mim foi emocionante também. Depois voltamos para nossas camas para tentar descansar, no outro dia podíamos dormir até mais tarde. Vou voltar um pouco na história para contar o episódio do por que ficamos sem jantar. Quando o almoço chegou um pessoal invadiu a frente da Kombi e derrubou o rapaz que distribuía as quentinhas. À noite, nós esperamos pelo jantar em vão, já era quase 23hs quando chegou um lanche. Sobre o jantar disseram que teria havido um mal entendido, tinham prometido comida para gente até este dia, mas só viera o almoço.

12 de outubro – Terceiro dia da marcha (Dia de descanso)

Como neste dia iríamos ficar quietos, levantamos por volta das 7:30, todos contentes porque íamos descansar. As mulheres foram lavar roupas, alguns homens também. Uns foram jogar truco, outros foram conhecer a cidade. Como faço parte da direção estadual do MTL na região sudoeste de Goiás, tinha que participar de uma reunião, por volta das 08hs. Nós comemos pão com mortadela e tomamos café que fizemos ali mesmo na frente do estacionamento em uma trempe improvisada. Às 09:30, a coordenação geral fez uma reunião do dia para tentar organizar a marcha dali para frente.

Muitos de nossos companheiros não sabiam qual era o objetivo daquela marcha, achavam que era só chegar a Brasília o mais rápido possível, mas não era. O nosso objetivo era mexer com a opinião pública e tentar ter um pouco mais de apoio para reforma agrária e os movimentos sociais, por isso era necessário andarmos de forma organizada. Essa reunião foi até o meio dia quando então paramos para almoçar e, como sempre, teve problemas, pois só veio a metade das marmitex. Nosso pessoal teve que dividir uma marmitex por duas pessoas. Terminado o almoço, partimos para uma nova reunião tudo para tentar organizar nosso pessoal, essa reunião ficou até ás 14hs. Então paramos para tomar água e fomos para outra reunião com as coordenações dos outros movimentos. Essa reunião durou até as 16h30. Às 17hs reunimos nossos grupos e passamos tudo o que ficou decidido nas reuniões das coordenações, mas não pense que essa seria a última reunião do dia, faltava uma assembléia geral no ginásio de esporte onde estavam os outros companheiros de todos os movimentos.

Saímos do estádio e formamos duas filas organizadas, nós estávamos só com o grupo do MTL, por isso foi muito fácil formar as filas. Chegando lá ouvimos músicas sobre reforma agrária, até que todos os grupos estivessem reunidos na porta do ginásio. Começou a assembléia que demorou mais ou menos 2 horas. Ao terminar, nós formamos novamente duas filas e voltamos para o estádio, chegando lá, nós jantamos e deitamos. Logo se tornou só o silêncio da noite, todos estavam dormindo porque no outro dia seria tudo normal.

13 de outubro – Quarto dia da Marcha

Mais ou menos às 04hs começou o arruma-arruma de coisas. Por volta das 06hs todos estavam prontos para seguir nossa marcha, formamos duas filas. Este dia não deu trabalho, tudo foi organizado rapidamente. Andamos uns 8km até chegar onde estava nos esperando o café da manhã, passamos uma fila de cada lado dois sacos de pão, era pão e leite, mas não havia copo e, por isso, foi passado um saquinho de 1 litro de leite para dividir entre três pessoas. Eu não quis leite, só comi pão, paramos depois para descansar por cercar de 15 minutos, logo depois saímos novamente em duas filas tudo bonitinho até chegar a Branápolis, onde nós íamos ficar o resto do dia e à noite. Neste local nós conseguimos somente uma área de terra do colégio da cidadezinha para fazermos barracos de lona. Para nós não foi novidade, pois nos acampamentos moramos em barracos de lona. Pensamos que ia ser mil maravilhas, mas como estávamos enganados. Logo que almoçamos entramos em nossos barracos e começamos a esparramar nossos colchões, o tempo mudou para chuva e logo veio um vendaval com chuva. A lona logo voou, corremos, pegamos a lona e tentamos não deixar molhar nossas coisas. A turma nossa conseguiu, mas muitos companheiros não tinham terminados de fazer as barracas e foi aquela correria.

Gente correndo para todos os lados, tentando salvar suas coisas para não molhar, tudo em vão, alguns grupos menos preparados molharam todas as roupas, cobertas e colchões. Nossa equipe de articulação política conseguiu uma casa inacabada para nosso grupo dormir, mas nosso sofrimento só estava começando. Na casa não tinha banheiro, as mulheres foram banhar no colégio, os homens tinham que ir a um córrego a uns 2 km de distância e com uma água um tanto suja. Mas, mesmo assim, banhamos e tudo ficou bem graças a deus e a determinação dos companheiros, que não desistem tão facilmente.

Tínhamos que chegar firmes e unidos no DF para mostrar para a população e para os nossos governantes que nós estávamos unidos, tínhamos muita força de luta e queríamos ver implantado o II Plano Nacional de Reforma Agrária.

A noite chegou e com ela muita chuva, continuávamos na casa inacabada, mas muitos companheiros continuavam nas barracas de lona. Ficamos então na alternativa do jantar para ver se passava um pouco aquele sofrimento, só por volta das 21hs é que chegou enfim a janta. Jantamos e quem não tinha molhado suas coisas conseguiu dormir e, graças ao cansaço, logo todos estavam dormindo. Os que tiveram suas coisas molhadas passaram como deu, não tínhamos como ajudar os companheiros já que cada um de nós levou só o suficiente para sobreviver.

14 de outubro – Quinto dia da Marcha

Como sempre o dia começou com correria, novamente nos erguemos às 04hs da madrugada, com nossas coisas arrumadas seguimos nossa marcha. Às 5:45 formaram-se as filas, eu novamente fui para a frente da fila representar o nosso movimento com a nossa bandeira. Com tudo organizado saímos de Branápolis rumo a Brasília.

Uma companheira e seu companheiro saíram da estrada (fazer o que? Não vou dizer). A companheira caiu em uma cisterna desativada de uns dois metros de profundidade deixando a companheirada muito assustada, mas, graças a deus, foi só o susto, juntando as bandeiras dos companheiros e emendando todas fizemos uma corda e contando com a luta de nossa companheirada, conseguimos tirar nossa companheira amiga e guerreira que, com alguma dificuldade, conseguiu sair do buraco. Ela foi uma heroína, porque mesmo toda suja de lama prosseguiu até um ponto onde pôde banhar e trocar de roupa o que deixou todos muito contentes, pois nada de mal aconteceu a não ser o susto e a sujeira de lama. Mas tudo foi normal.

Andamos 8 km e paramos para tomar café e em seguida descansar por 15 minutos. Logo formamos duas filas e partimos, só faltavam 12km para que chegássemos a Abadia onde iríamos almoçar e descansar o resto do dia e noite.

Chegando a Abadia nos dividimos em dois grupos, cada um em um ginásio de esportes, onde ficamos foi necessário fazer barracos de lona, mas isso foi só o começo de nossas dificuldades. Quando começamos a tomar banho, começou uma batalha, quando ligava o chuveiro do banheiro masculino acabava toda a água e quando era do feminino do mesmo jeito, mas íamos tocando até quando as mulheres resolveram lavar roupa… Aí começou a confusão, quando as mulheres abriram as torneiras da lavanderia acabava a água dos banheiros. Foi então que nosso coordenador propôs uma votação para decidir se tomávamos banho ou lavava roupa, foi votado e o banho ganhou, mas as mulheres que tinham molhado as roupas não aceitaram a votação e bateram o pé dizendo que só parariam quando terminassem de lavar as roupas molhadas.

Foi chamada a equipe de segurança e pediu-se que não deixassem molhar mais roupas, enquanto isso se formou uma longa fila na frente dos banheiros, entrei na fila atrás de umas 20 pessoas e o banheiro era só um. Mas dei sorte, pois avisaram no microfone que havia uma represa nas proximidades e ficou na minha frente só um para banhar.

Tudo acabou bem, foram sendo descobertas represas e bicas de águas para tomarmos banho e tudo voltou ao normal, ficando tudo às mil maravilhas. Peguei alguns depoimentos de companheiros para saber o que estavam achando da marcha.

Vera Lucia Ferreira Silva (minha esposa): “Uai, desde Goiânia estou gostando, está bom, os pés doem muito, mas está ótimo, esta é a primeira caminhada tão longa que eu participo, dormindo em estádio de futebol e em barracões, comendo na beira da estrada, está sendo uma ótima experiência, estou aprendendo muito, nossa luta não é só nos acampamentos, mas também fazendo esse tipo de ação”. O motivo do “uai” é porque minha esposa é mineira.

Senhor Joaquim: “A marcha no meu entendimento está sendo boa, mas tem uns companheiros nossos que não entendem o que é a marcha, muito brutos, não compreendem, os companheiros não sabem falar com os outros, é só isso”.

Pereira: “Olha a marcha para mim está normal, não estamos passando fome e nem dormindo mal, nossa turma de Jataí assim como todo o MTL está todo bem organizado, os companheiros mais novos de movimento estão de parabéns com sua compreensão sobre a marcha, e acima de tudo estão mostrando que nossa luta não se faz só de conquista”.

Terminando este dia, logo após a janta, estava a maior calma, logo todos estavam dormindo. Neste dia fomos informados de que sairíamos as 05hs da manhã do outro dia, por isso dormimos bem cedo.

15 de outubro – Sexto dia da Marcha

Neste dia a arrumação começou às 03hs da madrugada. Às 03:30 saíamos a caminho do outro ginásio para nos juntarmos com o resto da turma e chegando lá eles já estavam de saída. Fui novamente para a frente da marcha representar nosso movimento. Neste dia teríamos uma marcha um pouco mais longa, pois iríamos até Alexânia, onde fomos recebidos com foguetes e todos nós ficamos acampados em um ginásio e uma escola, ficamos quase 50 pessoas em uma sala de aula. Foi um sufoco, mas nos ajeitamos como deu. Agora vou dar um tempo nos problemas, como a luta para tomar banho e contar um pouco de alegria. Um pouco de emoção não faz mal a ninguém.

Para contar esse episódio alegre terei que voltar 21 anos para trás. Nesta data um casal se separava, cada um seguiria o seu caminho, ela foi para um canto e ele para outro. Ele se tornou um lutador pelos seus direitos e do povo sofrido do seu país, ou seja, um sem terra hoje seguindo em marcha rumo à Brasília com seus companheiros de luta. Ela continuou ali na região de Alexânia. Estamos neste local onde paramos para descansar, foi então que esse companheiro teve uma grande surpresa, chegando a um local da cidade com emoção reencontrou sua ex-esposa e, ainda por cima, ficou sabendo que quando havia separado dela, uma linda garotinha estava a caminho.

Hoje conheceu sua filha, que já é uma mulher de 21 anos. Não dá para descrever a emoção que foi esse dia, pai e filha ficaram o resto do dia juntos se conhecendo, mas não deu nem para contar o resto de sua história, no entanto ele prometeu voltar para matar a saudade e ficar um pouco mais com sua filha.

Voltamos para a escola, jantamos e tratamos de dormir, pois no dia seguinte às 05hs da manhã partiríamos novamente.

16 de outubro – Sétimo dia da Marcha

Às 03hs da madrugada a turma despertou para arrumar as coisas, novamente foi aquela luta para organizar tudo, depois de tudo organizado partimos rumo à Brasília. Antes de o dia amanhecer direito, pisei de mau jeito no meio fio e torci o tornozelo. Deste momento em diante foi um sacrifício continuar andando, mas, mesmo com o pé torcido, continuei andando, até mesmo porque o sangue estava aquecido o que acalentava a dor. Quando paramos para tomar café da manhã um companheiro resolveu atravessar a pista e foi colhido por um ônibus, daí então se formou um grande tumulto, pois o povo queria linchar o motorista do ônibus, mas com um pouco de diálogo tudo ficou bem.

Eu fiquei sentado no meio fio, até tentei continuar andando, mas a dor se tornou insuportável , não deu, pedi para que outro assumisse o meu lugar na frente da fila com a bandeira e peguei carona em um carro de apoio até o acampamento onde iríamos passar a noite, não posso contar nada desse trajeto da marcha, pois não participei.

Deste dia só contarei a partir da minha chegada no acampamento, que seria na beira do Rio Sete Curvas, nossa comissão de infra-estrutura montou vários barracos de lona, quando cheguei nosso barraco ainda não estava pronto, nossas coisas estavam amontoadas na beira da estrada, com muita dificuldade conseguir achar e pegar nossas coisas e fui arrastando para onde seria nossa barraca, lá chegando procurei a equipe de saúde que me passou uma pomada para que eu fizesse massagem nos pés.

Depois fui deitar de baixo da sombra de um pé de jatobá para que desse tempo dos meus companheiros terminarem nossa barraca, depois de pronta a barraca fui para lá e em seguida fui tomar um banho. Água não faltava, o problema era conseguir ir até lá com o pé machucado, pois estava em um lugar de difícil acesso, mas com muito esforço consegui chegar até lá, tomei um bom banho e voltei mancando para o barraco.

Quando lá cheguei a marcha também já tinha chegado e minha querida companheira esposa estava me procurando para que pudéssemos almoçar, pois depois ela iria lavar roupa, eu ficaria por ali tentando descansar. Mas isso se tornou impossível devido ao barulho dos jogadores de truco, mais tarde sentado à sombra do jatobá fiquei observando o que o povão fazia. Um companheiro andou dizendo que uma plantinha que havia aos montes lá no pasto carregava nossas energia, todos pegaram suas enxadas e foram cavar o pasto onde diziam ter a tal planta. Era velho, homem, mulher, jovem, uns arrancando para o filho, outros para o pai, outros para mãe, mas ninguém procurando para si mesmo.

Quando a noite chegou o pasto estava todo cheio de buracos e todos tinham um punhado de raiz para os seus parentes, pois ninguém assumia que estava precisando, logo que anoiteceu todos quietaram, pois não podiam jogar truco no escuro.

17 de outubro – Oitavo dia da Marcha

Novamente, às 03hs da madrugada, estavam todos de pé. Nessa manhã arrumar as coisas seria um pouco mais difícil, pois era tudo no escuro, tínhamos apenas as luzes dos carros para nos ajudar. Aí foi aquela bagunça, o carro de som anunciando que havia roupas no varal e chamando quem não tava atento, mas, ao final, tudo foi normalizado. Nós estávamos lá na frente esperando a turma para partir, mas ainda tínhamos que esperar a polícia rodoviária federal que iria nos acompanhar já que o lugar era um tanto quanto perigoso.

Às 6:20 partimos para o que seria o nosso último dia de marcha no estado de Goiás. Tomamos café da manhã já no distrito federal, depois de 15 minutos de descanso partimos novamente, passamos por Engenho das Lages, uma cidadezinha um tanto quanto bonitinha, e andamos até chegar ao posto Asa Branca, onde ficaríamos acampados em barracos de lona. Ao chegarmos, fomos almoçar e depois na equipe médica, eu e minha esposa. Estava tudo bem, mas um companheiro nosso teve que ir ao hospital de Santo Antonio do Descoberto. No entanto não era nada grave era só uma perna querendo infeccionar.

Eu e alguns companheiros fomos tomar um banho e nesse intervalo aconteceu algo interessante. Enquanto banhávamos, a filha de uma companheira nossa passou mal, uma das coordenadoras da equipe de saúde as pegou e as levou para o hospital em Brasília, no entanto não avisou o marido da mesma. Chegamos do banho e ele estava doido procurando a família, foi então que alguém falou que eles tinham ido para Brasília. Ele juntou suas coisas e foi atrás, ainda tentamos convencê-lo a ficar, mas não conseguimos. Nosso companheiro saiu doido atrás de sua família e os encontrou em Brasília. No outro dia ele retornou para marcha e contornou nossa preocupação.

18 de outubro – Nono dia da Marcha

Na manhã do dia 18 acordamos às 04hs da madrugada, depois do arruma-arruma habitual seguimos com nossa marcha rumo a Brasília. Ainda teria uma noite antes de chegarmos à capital federal, o ponto final de nosso suplício. Nesse dia iríamos até Candangolândia, onde iríamos passar a noite. Na nossa caminhada desse trajeto aconteceu algo lamentável, uma companheira tropeçou no meio fio e caiu, quando ela caiu outro companheiro que estava perto dela pisou em sua perna causando uma forte torção, ela não conseguiu suportar a dor e foi levada pelo carro de apoio até o nosso próximo ponto de descanso. Lá chegando foi atendida pela equipe de saúde que suspeitou de fratura e a encaminhou para o hospital onde a suspeita foi confirmada, a sua perna estava quebrada. Não tinha ortopedista neste hospital, ela teve que ser encaminhada para Brasília, sua perna foi engessada e ela voltou para o nosso acampamento à noite.

Nossa marcha chegou ao acampamento por volta das 15hs debaixo de chuva e ficaram cheios de lama os nossos barracos. Mas esse tipo de sacrifício faz parte, com muito trabalho conseguimos por lonas no chão para poder por os colchões por cima para podermos descansar. Começou uma confusão quando alguns companheiros iriam para um ginásio de esportes, formou uma fila, mas nem todos poderiam ir, então começaram a pressionar a coordenação e como faço parte dessa coordenação acabou o meu descanso. Lá fomos nós resolver mais este problema, só terminamos essa reunião no início da noite, quando finalmente fomos descansar. Neste dia poderíamos dormir até mais tarde, pois no dia seguinte só sairíamos depois das 08h00, pois agora só faltavam 10km para que chegássemos ao nosso destino final, nesta noite, com muita luta, conseguimos dormir. Foi uma noite tumultuada, mas conseguimos superá-la sem maiores consequências.

19 de outubro – Décimo dia da Marcha

Nesse dia levantamos às 07hs e começamos o arruma-arruma de coisas. Por volta das 08hs da manhã saímos sem tomar café, pois faríamos isso na beira da estrada onde também aconteceria um ato político.

Neste ato discursaram as seguintes pessoas: José Genoíno (Presidente do PT), Senador Eduardo Suplicy (PT), Dep. Estadual Isaura Lemos (PDT), Valdir da Coordenação Nacional do MST, Zelito da Coordenação Nacional do MTL, Dom Tomaz Balduíno presidente da CPT.

Terminado esse ato político saímos rumo ao nosso destino final, que era o parque da cidade. Neste trajeto uma caminhonete parou do nosso lado e o motorista nos disse que estava admirado com nossa organização e nos parabenizou. Disse que achava engraçado nos pontos de parada, pois éramos como maribondos quando alguém joga pedra na casa deles, esparramava gente para todo lado, logo se reunia em fila e prosseguiam, destacava-se na organização o MTL. Disse também que por admirar os movimentos organizados vinha observando nossa marcha já há alguns dias, isso nos deixou um tanto quanto orgulhosos, já que participamos desse pessoal citado. Chegamos então no parque da cidade e aí era só esperar que o presidente viesse ao nosso encontro dos trabalhadores.

Nossa marcha chega a Brasília

Foram 10 dias de marcha e 250 km percorridos entre Goiânia e Brasília, na bagagem muita disposição e entusiasmo para ver efetivado o II Plano Nacional de Reforma Agrária prometido na campanha de 2002 e já na mão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Eram mais de duas mil pessoas vindas de, no mínimo, 12 estados, ligadas aos movimentos que compõe o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo. A meta principal do fórum é assentar um milhão de famílias durante a vigência do próximo Plano Plurianual (PPA), entre 2004 e 2006. “Mas no ritmo que está indo não vão assentar nem 100 mil até o final do governo”, reclamava um companheiro do MTL.

“Vamos lá meu povo, que o Lula está nos esperando em Brasília” – gritava um companheiro que seguia na frente das duas fileiras organizadas, tentando animar nossa marcha. Assim o dia ia transcorrendo, gritos de ordem, um movimento gritava dali e outro respondia daqui, e o dia ia passando entre canções e brincadeiras para disfarçar a canseira e as dores nos pés.

Um militante que vinha do Tocantins sempre fala, quero ser recebido pelo governador do Tocantins com honra ao mérito quando eu voltar para lá, outro dizia, em tom de brincadeira, que o Lula nos receberia, pois era comedor de cuscuz como a gente.

Uns automóveis que passavam a pista oposta à nossa, na BR-060, buzinavam e acenavam em apoio a nossa marcha. Éramos recebidos com aplausos e com música do Sérgio Reis no caminhão, que os trabalhadores recebiam com gritos típicos já que apesar do cansaço não perdíamos a animação. O grupo de Mato Grosso do Sul levava a tiracolo a guampa de tererê, uma bebida de erva verde com água gelada, popular na região da fronteira com o Paraguai. Nas paradas as mães reencontravam seus filhos que seguiam em paralelo a caminhada dentro de um ônibus, logo a frente do grupo três caminhões carregavam nossas bagagens.

Mesmo com todo o cansaço não havia reclamações, pois o sonho da conquista da terra prometida curava qualquer dor ou angústia. O pedaço de terra tão sonhado valia a pena. Quando chegamos ao centro de convenções de Brasília, aí foram muitas reuniões para parabenizar nosso pessoal, o resto do dia foi de descanso.

O Presidente Lula vem ao encontro dos trabalhadores

Enquanto descansávamos, o senhor Miguel Rosseto do MDA voltava com a notícia de que o presidente ia ao nosso encontro e que seríamos nós que teríamos que organizar a segurança do presidente. Isso para nós foi uma surpresa, mas precisávamos mostrar que tínhamos organização e capacidade e fizemos isso.

Quando o presidente chegou foi um sufoco para segurar o povão, foi empurra-empurra para lá, um empurra-empurra para cá, mas com muito louvor conseguimos cumprir mais essa tarefa. Levamos todas as autoridades no palco onde fariam seus discursos.

Discursaram os seguintes representantes: dep. federal João Grandão (PT), dep. federal Terezinha Fernandes (PT), pres. do PT José Genuíno, dep. federal Adão Preto (PT), padre Martins da CNBB, pastor Hermínio (presidente da comissão das igrejas evangélicas), Elisangela da CUT, Euler Ivo (vereador do PDT de Goiânia), Miguel Rosseto (Ministro do Desenvolvimento Agrário), Manoel dos Santos (pres. da CONTAG), Zelito (Coordenação do MTL), João Pedro Stedile (Via Campesina), Dom Tomaz Balduíno (da CPT), o cônsul do Equador que não consegui pegar o nome, dep. Estadual Isaura Lemos (PDT de Goiás), senador José Sarney (presidente do senado e do PMDB), dep. federal Carlos Monteiro, irmão Neuci (representante das igrejas católicas), senador Eduardo Suplicy (PT de SP), João Paulo (coordenação do MST) e, por fim, o professor e advogado Plínio de Arruda Sampaio (elaborador do Plano Nacional de Reforma Agrária) que disse em seu discurso que o Brasil tem muita terra sobrando, só falta o governo querer fazer a reforma agrária e destinar os recursos necessários para fazer a mesma, (terra tem).

Então foi a vez do presidente fazer seu discurso, esse por sua vez disse que o povo pode até perder a paciência, mas nunca perder a esperança – só que debaixo de um barraco de lona é um tanto quanto difícil, se o governo não agir, não tem como termos paciência. Se o governo pensar, verá que se esse povo que veio de pé de Goiânia a Brasília perder a paciência ninguém segura.

Terminado o ato político fizemos um cordão humano que protegeu o presidente até a sala de imprensa e voltou tudo ao normal. No entanto, nossa jornada ainda não tinha acabado. Ainda tínhamos que fazer uma manifestação em frente à embaixada americana contra os transgênicos. Descansamos um pouco e lá fomos nós novamente com nossas bandeiras e faixas pelas ruas de Brasília, quando passávamos pela esplanada dos ministérios muitos nos aplaudiam, outros nos xingavam, mas já estamos acostumados com isso, pois é do mesmo jeito nos acampamentos, essa turma que quer aparecer como filho de burguês é assim mesmo.

Quando chegamos à embaixada americana fizemos nosso protesto, cantamos música do movimento e ouvimos nossos companheiros fazerem seus discursos de protestos contra os americanos e seus lixos transgênicos. Jogamos um pouco de milho natural no pátio da embaixada e nos preparamos para voltar. Passamos perto do palácio do governo e voltamos para o centro de convenções para arrumar nossas coisas, voltar para nossos acampamentos, retomar nossas vidas esperando pelo dia que conseguiremos nosso tão almejado pedaço de terra e superarmos esse sufoco.

Participaram dessa marcha os seguintes movimentos e organizações:

  • MTL – Movimento Terra, Trabalho e Liberdade
  • MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
  • FETAEG – Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Goiás
  • MAB – Movimento dos Atingidos por Barragem
  • MMTR – Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais
  • MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores
  • CONTAG – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
  • Via Campesina

Alguns companheiros do movimento de Goiás que participaram dessa marcha: Lena, Geraldo, Márcia, Francisca Auxiliadora, Léia, Queila, Émerson, Rosa, Wilson, Joyce, Márcio, Laís, Alice, Joana, Rosa, Noemi, Valdeme e Zelito.

E o suplício continua: Comentário sobre o diário da marcha escrito pelo Valdeme

Zelito, testemunha ocular

Ex-membro da direção nacional do MTL

Membro da Coordenação Nacional do Terra Livre

De fato, esta marcha de 2003 foi uma experiência fantástica para muitos militantes de base e aqueles que compunham os níveis de direção, porque tivemos que nos superar física e politicamente. Isto porque eram vários movimentos, cada um com seu jeito de organizar as coisas, seus métodos, o seu pragmatismo e consensuar tudo isto não foi fácil. Lembro dos primeiros passos, quando decidimos participar da marcha a partir da proposta do Fórum Nacional pela Reforma Agrária em uma reunião convocada pelo Fórum Estadual de Reforma Agrária de GO. Levamos a proposta para a direção do MTL, que foi contrária, mas não vetaram, deixaram em nossas mãos a decisão. Aí, eu e o Barroso, que estávamos no comando do setor agrário do MTL, fizemos uma consulta aos quadros intermediários e sentimos que existiam ânimo e disposição política da turma em participar da marcha. Então bancamos. Foi aí que começaram nossas encrencas. Só nos últimos dias, com o sucesso da marcha e o destaque da participação do MTL, é que os demais membros da direção apareceram para o ato final.

É importante ressaltar, que três anos após a marcha, o MTL sofreu um racha e que a maioria dos companheiros que participaram da marcha constituiu o Terra Livre. Também é importante citar que este companheiro que escreveu o diário ficou no MTL, mas entregou para nós o manuscrito do diário e que levamos muito tempo para decifrar o que estava escrito, depois digitar e diagramar. Depois, por um tempo, ficou nas gavetas e só agora o reencontramos e resolvemos publicar. Porque para quem participou é uma memória viva com ótimas histórias. Outro fato também interessante é que as maiorias das direções da CONTAG e da FETAEG não aderiram à marcha desde o início, mas, só mais para o final, um grupo de Goiás decidiu participar, meio que por conta e liderado pelo companheiro Antônio Caiapónia  da CUT que bancou uma turma para participar. Mais tarde, parte deste grupo, se dividiu e formou a FETRAF-Brasil. No início da marcha os dois maiores grupos eram o MST e o MTL, só ao final a Contag levou vários ônibus para engrossar a marcha.

Para abrilhantar o diário do Valdeme, vou contar alguns fatos da organização. Nos dias que antecederam a marcha, formou-se um comando para organizar a marcha com os principais dirigentes dos movimentos para fazer articulação política e viabilizar a infra-estrutura, caminhão, ônibus, ambulância, caminhão-pipa, carro de som, lona, comida, carro de apoio, pontos de parada a cada 25km, comunicação etc. Formo se um comando inicial para organizar a marcha (Zelito, na época MTL), Valdir MST, Antonio Cut/Fetaeg, Galego CPT .

Um primeiro episódio foi articular uma reunião com o governador Marconi Perillo (PSDB) para pedir apoio do estado, assim como também fomos pedir à prefeitura, na época governada por Pedro Wilson (PT). Recorreu-se aos padres e bispos e aí marcaram a reunião com o governador com o objetivo de conseguir ônibus para deslocar o pessoal do interior até a capital onde começava a marcha, além de outras demandas da longa lista de pedidos para infra-estrutura. Nesta reunião ocorreram dois episódios engraçadíssimos. Além da apreensão de se reunir com Marconi, ele do PSDB, para pedir apoio à marcha dos sem terras, rolou um constrangimento logo na chegada, quando aguardávamos na porta do palácio enquanto os participantes da reunião iam chegando. Chegou o bispo emérito de Goiás, Dom Tomás Balduíno, e, em seguida, o bispo titular de Goiás, Dom Washington. Este, quando avistou Dom Tomás, disse que ia recuar da reunião, pois já tinha um bispo e não precisava dele ali. Não sabemos ao certo porque, coisas entre os bispos. Aí foi aquele silêncio, mas um dos padres presentes foi ate lá para conversar com objetivo de demovê-lo da ideia de não participar da reunião. Após alguns minutos de conversa, Dom Washington continuava relutante e, então, o Valdir do MST foi até ele e disse “não vá embora, vamos participar da reunião, pois dois bispos são melhor que um”. Aí foi só risos e ele concordou em participar.

Quando chegamos na reunião, Marconi afirmou que ela teria que ser rápida, pois estava com uma viagem marcada para a inauguração de uma rodovia que acabara de ser recapeada etc. O governador começou a contar quantos quilômetros de rodovia já havia recuperado, citou todas as rodovias e que em todas as rodovias recuperadas seriam instalados “olhos de gato” de 10 em 10 metros para dar mais segurança aos motoristas. Dom Washington se assustou e perguntou para o Marconi, com tom de reprovação: “Mas de 10 em 10 metros aquele negócio que tira fotos?”, fazendo um gesto com as mãos – ele pensou que seriam radares. Aí foi uma gargalhada coletiva puxada por Vander do MST – que tem aquela gargalhada que você ri da risada dele, como o Bira do Jô Soares. Demorou uns dez minutos para recompor a reunião porque até o Marconi e seus assessores não paravam de rir. Marconi teve que explicar que não era bem assim, que “olho de gato” eram aquelas pedrinhas fluorescente que ficam brilhantes de noite e buscou contornar, para não parecer que estávamos todos rindo dele e sim com ele. Isto serviu para descontrair a reunião e o Marconi teve que ceder vários ônibus, caminhão e outras coisas mais.

Outro fato também engraçado foi quando procurávamos local para montar os acampamentos para pernoitar – aqueles que Valdeme faz referência – com antecedência. Calculamos a distância em espaços de 20 a 25km partindo de Goiânia. Teríamos que montar acampamento e, com isso, negociar com prefeitos, proprietários de fazendas, etc. Um destes locais de montagem do acampamento pertencia a um fazendeiro, tido na região como bravo e que não queria nem ver sem terra. Descobrimos isto nas investigações preliminares, nos botecos, nas casas nas margens de rodovia e aí ficamos apreensivos de ir fala com o cara. Mas decidimos ir mesmo assim. Estávamos em dez pessoas em dois carros. Dividimos a turma, colocamos um padre na comissão de frente para negociar ou para recomendar as almas, preparamos os celulares, ficamos com os carros em posição de partida. Foram três na frente, mais três em seguida e ficaram quatro para organizar a fuga ou para pedir socorro. Quando a turma chegou lá e disse que a marcha era com dois mil sem terras, o fazendeiro perguntou: “Quanto? Dois mil? Ah, arrumo sim. Vocês querem olhar o local agora? Posso deixar com vocês uma cópia da chave do cadeado”. Na volta da turma, após a negociação, foi aquela gozação.

Fomos à fábrica da Schin, próxima de um dos pontos de parada para pedir apoio, já que o negócio estava fácil. Mas nos demos mal, os caras não cederam nada, deram uma canseira danada para nós receber. No fim, um dos representantes da comissão perguntou: “mas nem um barril de chope?”. Não. Saímos de lá prometendo boicotar a Schin. Eles ficaram apreensivos e, quando souberam que a marcha estava se aproximando, contrataram vários seguranças e colocaram na porta da fábrica. Levei a sério, até hoje não tomo Schin. Foi próximo a este local, em um povoado, que Valdeme relata que choveu sem parar quando os barracos não estavam montados, enquanto não cabiam todos na escola. Com isso, os moradores abriram suas casas e abrigaram vários sem terras, cobraram um taxinha para o banho (de R$0,50 a R$1,00). Foi a salvação, enquanto os moradores faturaram uma graninha, muitos deles foram dormir em casas dos parentes e cederam suas casas. Foi uma espécie de solidariedade em troca de um pequeno valor monetário, faturando quinze ou vinte reais.

Quando o Valdeme se refere à crise que se abateu nos primeiros dois dias de marcha o que ocorreu foi que, de fato, perdemos o controle da base, que virou uma boiada estourada. Não tinha nenhuma organização, virou uma bagunça, tal como ele cita, porque o plano inicial deu errado. Era para sairmos 8hs da manhã no primeiro dia, partindo do Paço Municipal, porque sabíamos que nos primeiros dias de percurso a turma começa com pique, depois diminui o ritmo e, só após algum tempo, retoma em um ritmo mais cadenciado. Esperávamos isto lá pelo terceiro dia, mas com o atraso de mais de duas horas (quando saímos de Goiânia era 10:30), o sol estava escaldante e o percurso do primeiro dia era de 30km por um problema logístico e de segurança – a BR-153 neste ponto não oferecia nenhuma condição para montar acampamento para todos (em média era preciso 30 barracões para alojar todos), enquanto o carro de som era insuficiente para fazer a comunicação com toda a marcha, só conseguimos ajustar o caminhão-pipa só após duas horas de caminhada. Enfim, foi um caos completo e nós, da direção, ficamos mais cansados do que os companheiros da base, além do preparo físico, que já não era lá estas coisas, tínhamos que andar três vezes mais que a base para tenta resolver os rolos. Subíamos e descíamos, aí chegou uma hora que não dávamos conta de falar de tão cansados, com bolhas nos pés, assaduras na virilha e com sede.

Realmente foi um transtorno quando chegamos em Anápolis, tal como Valdeme relata. Porque sabíamos que o sucesso da marcha dependeria de conseguirmos reorganizar a marcha, assumir o controle, aparar as arestas entre os dirigentes de base dos movimentos que começaram a brigar entre si. Avaliávamos que, se morresse alguém atropelado ou se ocorresse um enfrentamento com a polícia, toda a marcha seria questionada, a direita nos atacaria, o governo não nos receberia e as autoridades que, mesmo sem muito acordo, estavam nos apoiando se retirariam. Tudo isto estava em jogo, precisávamos ganhar a população por onde iríamos passar. As pessoas não podiam sentir medo da marcha, mas sim expectativa quanto a passagem da marcha pela cidade. Aí foi que, acertadamente, decidimos parar em Anápolis por dois dias, já que lá tinha uma boa infra-estrutura. Fizemos dezenas de reuniões com as direções, com a base e tratamos dos mancos.

Surgiu outra crise, que o Valdeme faz referência, quanto ao atraso da janta. Isto ocorreu porque quando fizemos um acordo com a prefeitura de Goiânia, esta se comprometeu a levar marmitex até o meio do caminho para Brasília, deste ponto em diante as refeições viriam de Brasília, fruto de outro acordo do Fórum Nacional com a CONAB, o MDA, etc. Porém, a cada dia, a marcha ficava 25km mais distante do restaurante, que teria que fazer o almoço cada dia mais cedo. Este planejamento não foi feito pelo restaurante e aí, quando chegava a hora da comida, a turma ia ficando brava, a “base queria comer a direção”. Chamamos o representante da prefeitura para resolver esta situação, foi quando ele nos informou que o pessoal do restaurante disse que não dava conta de fazer a refeição mais cedo, porque teria que contratar mais gente e, com isto, o preço encareceria e a prefeitura não poderia pagar mais do que o combinado. Assim, a solução era continuar como estava, atrasando, ou eles paravam de fornecer. Foi aí que um dos participantes da reunião disse: “pois bem, diante desta situação, teremos que fazer um plano B, se amanhã não vir comida, ter que saquear o primeiro caminhão que passar na BR com alimento instantâneo, tipo enlatado, bolacha, café, açúcar, salsichas, queijos, etc. Justificamos isto como roubo famélico, Dom Tomás disse, fazendo um gesto com a mão, que teria a benção do bispo. Risos Mas isto não foi preciso, tudo se resolveu.

Outro episódio foi com os policiais de escolta da Polícia Rodoviária Federal, que nos acompanhava para ajudar a organizar o trânsito. Em um determinado momento da marcha, de repente, um carro resolveu furar o bloqueio feito por eles e eles saíram em disparada na perseguição ao carro. Quando apreenderam o cara, este deveria ser parente de alguma autoridade importante e não era lá muito simpático aos sem terras. Ele ameaçou processar os policiais e estes nos pediram para assinar como testemunhas em favor deles, pois o cara iria processá-los porque eles agiram para nos proteger. Concordamos e, com isso, os policiais viraram nossos amigos, pelo menos durante o período da Marcha.

Quando o Valdeme fala de Abadiânia, um pouco antes de Brasília, ainda pela manhã, chega, de repente, um dos nossos companheiros. Ofegante, ele me chama dizendo que tinha um homem em um carro querendo falar com alguém da coordenação da marcha. Eu perguntei o que ele queria e o companheiro responde que doar uma vaca para nós comermos. Aí eu falei: “o quê? Uma vaca?”. O companheiro disse que sim, já com o sabor do bife na boca. Tinha mais de sete dias de marcha, no maior suplício. Caminhei em direção ao tal homem, pensando o que nós faríamos com uma vaca em uma situação daquela, pois não podíamos matar a vaca, já que não daria nem ¼ de bife para cada um e também não tínhamos como levar a vaca para Brasília. Fui até lá meio descrente com aquela história e liguei para o Valdir do MST contando a história que, também surpreso, disse “o que? Uma vaca?” e, logo em seguida, dando sua habitual gargalhada. Fomos até lá e, ao chegar, vimos que era verdade. Encontramos um senhor bem vestido, com motorista e mais um acompanhante. Apresentamos-nos e ele foi logo dizendo: “eu sou Jaó de Abadiânia, sou simpatizante da causa de vocês, todo dia eu passo por vocês e fico todo arrepiado com a coragem de vocês e a sua organização. Aí eu decidi ajudar, sei que vocês devem ter dificuldades para arrumar comida”. Vimos que era verdade, mas não podíamos, perde a vaca mesmo com a situação adversa, ganhar uma vaca. Pedimos um minuto para fazermos uma pequena conferência ai o Valdir relatou que já o conhecia e que em outra, marcha, ele fez uma doação de carne, ai alguém surgiu com a ideia de ele doar em dinheiro o valor da vaca, o que resolveria nosso problema, porque estávamos precisando de dinheiro para comprar cartão de celulares, combustíveis para os carros, etc.

Fomos até ele e explicamos a situação. Perguntamos de que tamanho era a novilha, ele disse que tinha uns dois anos e valia uns R$700,00. Ele topou dar em dinheiro o valor da novilha, mas que alguém teria que ir até Abadiânia buscar o dinheiro no consultório dele. Escalaram-me para ir buscar o dinheiro. Quando cheguei ao consultório ainda estava meio incrédulo, mas fiquei impressionado com o tamanho do local e o cenário. Era uma espécie de clínica, quase um hospital, com vários ônibus estacionados, carros com placas de várias cidades e de outros estados, pessoas com santos nas mãos, muitas outras vestidas, de branco e no portão de entrada da clínica tinha até um jardim.

Quando ele chegou na porta de entrada da clínica e estacionou o carro se formou uma espécie de corredor polonês e ele fez uma pequena conferência com orientação aos seus ajudantes de curandeirismo. Por fim, disse que ia até o escritório, delegou a um de seus assessores que autorizasse na lanchonete para eu pegar o que quisesse para levar lanche para a turma e que, após pegar o dinheiro, me levasse de volta. E ainda disse que, se na volta, nós quiséssemos passar por ali, bastaria avisar que ele pagaria o almoço para todos. Eu disse para ele que ia discutir com a coordenação da marcha, pois não estava no planejamento. Além disso, nós não íamos voltar em marcha e sim de ônibus, cada um para um lado. O fato é que descemos do carro, ele colocou seu jaleco branco, seus assessores também. Ele na frente e nós atrás, as pessoas se ajoelhavam, diziam coisas que eu não entendia, tocavam nele, em seus assessores e em mim também – embora eu fosse o único de roupa comum, de boné vermelho, todo amarrotado de uma noite mal dormida. Mas também comecei a abençoar a turma, já que eles não sabiam quem eu era. Deviam estar pensando que eu era um novo assessor, aprendiz de curandeiro. Enfim, quando chegamos na lanchonete estava me sentindo um médium, mas voltei para a realidade e voltei as atenções para os salgados, afinal há vários dias que não tomava um bom café. Pedi um bom café com leite, um pastel, uma coxinha, etc. Pedi mais alguns salgados para levar para a turma, aí enquanto esperava o dinheiro fiquei por ali ouvindo e descobri que o João de Abadiânia é um médium muito famoso na região e até em outros estados. Ele é simpatizante da esquerda e chegou a colaborar com a guerrilha do Araguaia na época da ditadura. São histórias do suplício.

Em uma das cidades combinadas para fazer uma das paradas, a turma da articulação política foi negociar com o prefeito para dar apoio. O cara não quis nem receber a comissão e disse para não parar na cidade. O cara era do PFL (que hoje é o DEM). A marcha tinha que ser retomada no dia seguinte, a parada estava programada para a cidade e não tinha outro jeito. Tentou-se de todas as formas: foi deputado, padre, etc. conversar com o cara e nada. Quando já estávamos há aproximadamente 10 km da cidade, tivemos a idéia de ligar para o comandante da PM de Goiás, Coronel Edson, já que havíamos conversado com ele no inicio da organização da marcha. Colocamos para ele a situação: que o prefeito não aceitava que os sem terra parassem na cidade, nós não tínhamos alternativa, a turma estava brava e tínhamos decidido ocupar a prefeitura.  O coronel enlouqueceu, “não façam isto, eu falo com ele”. Passaram cinco minutos, ele ligou de volta e disse: “organizem uma comissão e vão ate lá que ele vai receber vocês para acertar o que vocês precisam. Este prefeito é louco, quer complicar minha vida, como posso deslocar um batalhão de Goiânia até aí. Vocês estão a menos de cinco quilômetros, meu efetivo está há mais de 150km”. Vieram risos de alívio, não saberíamos como iria terminar se o prefeito não tivesse recuado e, por isso, respondemos “obrigado comandante”.

Este comandante foi convocado para integrar a Força Nacional de Segurança que Lula montou e agora, mais recentemente, após a crise da polícia de Goiás iniciada com a prisão de 19 policiais este coronel foi convocado de volta pelo Marconi para comandar um comitê que cuidará apenas do entorno de Brasília, que é uma região com altíssimo grau de violência. Aliás, é bom salientar, que este comandante tem um modus operandi que dá margem de manobra para negociar. Por três vezes, negociamos com ele em situação de liminar. Ele deixou o movimento esticar a corda, explorar a imprensa até o limite e saímos da terra sem conflito. Todos os dirigentes dos movimentos tinham seu telefone pessoal. Ele tem uma postura que diz que os movimentos não podem sair desmoralizados, mas ele também não.

Lá pelo terceiro dia da marcha, o comandante Barrozinho retornou, pois havia ido até Uberlândia organizar mais um grupo de sem terras do movimento para engrossa a marcha. A fase mais difícil já havia sido contornada, ele chegou empolgado com a repercussão. Logo pela manha passou a mão em uma bandeira do movimento e foi lá para frente, fazer companhia para o Valdeme. Quando se posicionou, logo veio um militante do MST que lhe deu um chega pra lá e ele foi parar no acostamento. Não gostou, mas relevou e voltou para a posição. O mesmo cabra deu-lhe outro empurrão e aí ele retrucou. Os dois quase foram para o tapa, mas ele desistiu de ir à frente com a bandeira e deixou apenas o Valdeme. Na hora do almoço, Barrozinho pediu uma reunião com a direção para reclamar e propôs que conversássemos com a direção do MST. A questão é que Barrozinho não sabia do acordo que existia entre os movimentos, de que cada dia um movimento puxava a fila e, por isso, cada movimento só podia ter uma bandeira no pelotão de frente. Por isso, o militante do MST achou que ele estava querendo quebrar o acordo e não teve dúvida: jogou-lhe pra fora do pelotão de frente. Explicamos o combinado e que ele tinha que relevar, pois o pior já havia passado. Barrozinho continuou relutante, mas um dos nossos dirigentes, um daqueles cabras gaiatos disse: “Barrozinho, você também chegou muito afoito, logo querendo ir no pelotão de frente. Tem que marchar na fila primeiro, sentir o cheiro do asfalto, aí depois você vai pra frente”. Rimos e ele se convenceu.

Um dia antes da vinda de Lula até o Centro de Convenções em Brasília, todo o Fórum da Reforma Agrária se reuniu no Palácio do Planalto com Zé Dirceu (Ministro da Casa Civil), Luiz Dulce (Secretaria da Presidência), Miguel Rosseto (MDA), o presidente do INCRA, Gilberto Carvalho (chefe de gabinete da presidência) e vários deputados do PT para acertar os detalhes da proposta do II PNRA (Plano Nacional de Reforma Agrária). Pode-se ver aqui a importância da marcha.

Por fim, antes de o Lula ir até o Centro de Convenções, a imprensa estava fazendo cobertura diária, varias reportagens sobre a marcha. Era um clima bastante democrático, todos muito solidários. Afinal estávamos quase 15 dias juntos, tinha um rodízio para as entrevistas, etc. Antes de o Lula vir, o comitê de imprensa resolveu organizar uma coletiva com todos os movimentos na mesa. Acertamos que a CPT faria o pronunciamento em nome dos movimentos e, a partir daí, os repórteres perguntariam para quem eles quisessem. Organizamos uma mesa com as bandeiras dos movimentos que organizaram a marcha, com o número de cadeiras igual ao número de movimentos.

Mas tinha um problema: um dos movimentos só aderiu quando a marcha já tinha chegado a Brasília, quando viu a repercussão. Este movimento trouxe uns três ônibus de gente para o ato com o Lula. Aí a turma decidiu que o representante deste movimento não participaria da entrevista coletiva e não entraria para a conversa prévia com o Lula. Pois bem, quando chegamos na sala onde iria ocorrer a coletiva, o representante do movimento já estava sentado em uma das cadeiras na ponta da mesa, em um ponto estratégico. Os repórteres, fotógrafos, todos lá com as câmeras posicionadas. Aí um teria que ficar fora da mesa e este um teria que ser o cara do movimento que, segundo os organizadores da marcha, estava pegando carona. Rolou aquele empurra-empurra que um olha para o lado contrário e reclama com o outro. Sei que empurramos o cara lá para o bico da mesa. Isto não podia ser muito explícito para a imprensa não perceber. Geralmente são os repórteres que se acotovelam para pegar o melhor ângulo, neste caso ocorreu o inverso: foram os entrevistados que se acotovelaram para tirar alguém do ângulo, quem foi eu não vou dizer.

Tivemos um suporte importante, que foi de um PM da reserva conhecido por Sargento Mirabel, que nos acompanhou com uma tarefa importante, dirigir um dos carros de apoio. Com sua habilidade e dinamismo adquirido na profissão, entre acompanhar sua namorada Sem Terra que estava na marcha, assessorar a direção para assuntos de segurança e dar apoio operacional, ele é como um faz tudo, com bastante disciplina e obediência ao comando político do movimento. Foi ele que começou a anedota citada por Valdeme sobre os “mancos”. Era como os sem terras que não davam mais conta de andar por conta de câimbras, dores nos pés eram chamados. Uma das principais funções de Mirabel era recolher os mancos. Este companheiro seguiu o movimento, casou com a namorada sem terra. Posteriormente, em uma desocupação de uma fazenda, onde a polícia fez uma reintegração violenta, prendendo várias pessoas e agredindo outras, este companheiro ajudou um grupo de dirigentes a fugir. A polícia o prendeu colocando um revólver velho no seu carro e o levaram para o presídio militar onde ficou por quase dois meses. Os advogados do movimento da época o soltaram. Este é outro lado da história no suplício da luta.

Agradecemos ao Prof. Fernando Lacerda da UFG, pela diagramação e correção gramática. Este texto é de responsabilidade da Direção Estadual do Terra Livre GO.

Algumas fotos da Marcha

Comments (3)

 

  1. [...] SUPLÍCIO DE UMA LUTA: MARCHA DE GOIÂNIA À BRASÍLIA EM 2003 – 11/03/2011 [...]

  2. Pedro disse:

    Muito bom. É isso ai companheiros.

  3. Pedro disse:

    A LUTA É FEITA DE DEDICAÇÃO E SACRIFICIO.

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