Contra a intolerância do poder, as barricadas pela Terra Livre por um Novo Amanhecer

Por Vinicius Oliveira*
Fotos: Pedro Alves
Aracaju, Sergipe. Dia 30 de Julho, terça-feira. A manhã começou diferente do que qualquer outro dia desses 4 meses. Se no céu ensolarado aparecia um arco-iris, no asfalto que dava acesso a ocupação, barricadas de quase dois metros de altura fechavam as ruas. Era a necessidade de 311 famílias depositadas em uma estrategia de organização e resistência, que tinha começado 4 meses antes.
Organizar o passado é uma evolução nas lutas
Era apenas um areal chamado de praça,entre um dos maiores bairros da periferia e a zona de expansão (ou especulação), sem qualquer equipamento público, inexistente para os olhos do poder público, mas a necessidade de famílias fizeram com que vida brotasse neste terreno. Faz quatro meses que essas famílias manifestavam-se periodicamente pela moradia ou até mesmo pelo auxilio-moradia. A compreensão dos seus direitos veio relacionada com a organização, que veio somado com a luta.
Mas a Prefeitura foi intolerante desde o começo, pedindo a reintegração de posse da área, marcada pro dia 4 de Julho. Incursões policiais noturnas com capuz e metralhadoras eram comum. Pobre e favela muito perto de território das construtoras não pode ser tolerado. A intolerância aos pobres e movimentos sociais parece ser a regra da prefeitura de João Alves (DEM). O adiamento da ação de reintegração marcado pro dia 4 de Julho, aconteceu porque a Policia Militar e a Prefeitura não tinham estrutura e política para encaminhar a ação em meio as mobilizações de rua que aconteciam em todo o país e em Aracaju. A reintegração foi marcada para o dia 30 de Julho, avisada na quinta-feira informalmente por um policial e um oficial de justiça sem nenhuma decisão judicial. A decisão judicial saiu no outro dia ás nove horas da manhã, como quem encomendada de presente para o fim de semana.
Desafiando todo o autoritarismo e movidos pela necessidade e convicção a ocupação Novo Amanhecer-Movimento Terra Livre ocupou a Prefeitura de Aracaju durante a manhã do dia 29 de Julho, pra requisitar a retirada ou adiamento da reintegração até que as famílias tivessem a consequência do cadastramento que era o auxilio-aluguel e construção das casas.
Com uma certa truculência dos policiais que proibiram o acesso ao banheiro até mesmo pra crianças e gestantes, e exigindo ser recebido pelo prefeito ou o procurador, nenhum dos dois jamais apareceu.A secretaria municipal de assistência social respondeu que precisava de 60 dias pra apontar quem iria ganhar o auxilio-aluguel pelos parâmetros da lei, mas não quis compreender que as famílias então precisaria de mais 60 dias no local que sem água, sol e muitas chuvas já era uma reintegração natural.A prefeitura que estava vazia do prefeito mas cheia de povo sentiu-incomodada, quase violada pela presença e um certo atrito aconteceu entre os manifestantes e a polícia, mas ninguém foi preso e nada foi danificado,a  não ser a imagem pública da prefeitura. O movimento sabia que o papel estava cumprido, a reintegração não seria mais possível de ser ignorada pela grande mídia, e os agente da intolerância estava fixado com a falta de diálogo.
As Barricadas
Esse dia começara bem antes, com o desespero inicial ao saber da reintegração sem decisão judicial, com algumas poucas famílias que com medo abandonaram a Ocupação, mas também com o planejamento da comissão de organização. Mas a coragem da população foi mostrada instantaneamente, atos durante todo o dia da sexta e do sábado foram realizados, fechando ruas, pontes e até mesmo a rótula de acesso ao shopping. Não poderia ninguém na cidade não saber da covardia que a Prefeitura poderia cometer, e que sim, depois de vários anos, um movimento, uma ocupação, um povo ousaria resistir.
A resistência era organizada plenamente na auto defesa e na paciência. As quatro ruas de acesso onde a Policia faria o perímetro foram fechadas por grandes barricadas com quase 2 metros e um grupo de pessoas atrás, uma equipe de comunicação atualizava a cada minuto nas redes sociais. Água e comida foram estocadas e providenciadas para todo o dia. Militantes do movimento estudantil que rompe amarras, do PSOL e fotógrafos chegaram antes e ajudaram nas tarefas.Coletes de borracha e escudos de latão simbólicos foram criados com uma frase direta em todos eles: “PAZ com Direitos”.
Duas horas da madrugada foram subidas as barricadas, o amanhecer nunca tinha demorado tanto, até que as 5 horas o sol apareceu e trouxe um grande arco-iris de boas vindas a luta. A polícia começou a chegar com o amanhecer mas se surpreendiam ao ver as barricadas e davam marcha ré. A população movida a café puro e muita indignação estava disposta a resistir ou resistir, se a prefeitura tinha um mandado judicial, as famílias tinham necessidades e convicção nos seus direitos. Não demorou muito tempo para que chegassem as rádios, e o comando da operação avisou que não existiria negociadores nem negociação, nem representação da Prefeitura foi mandada, a polícia de choque e a cavalaria ia se preparar em instantes.
Mas do outro lado de cá da barricada estávamos preparados, nossos advogados foram brilhantes na sua atuação e negociação, total defesa do povo trabalhador e faca amolada no argumento e no direito, a comissão organizadora dividia-se nas tarefas e na observação tática da polícia militar, manter as pessoas atrás das Barricadas e não deixar se cansar com cada aparição policial. A polícia chegou com helicóptero e querendo amedrontar a mídia dizia que não garantiria a segurança. Mas os ocupantes garantiam que a mídia era bem vinda, apesar de não podermos confiar totalmente a intolerância da Prefeitura de nem mandar representante e possibilidade de conflito iminente favorecia o movimento a se colocar na ofensiva. A cada preparação da Choque e da Cavalaria, as famílias gritavam bem alto: “Pela nossa casa, pela moradia, pela Terra Livre, lutaremos todo dia”.
Metade da manhã, a moral da policia estava tão baixa que um dos cavaleiros com a passada do helicóptero perdeu as rédeas do cavalo que caiu em cima da perna dele, a ambulância teve que ser chamado tempos depois. A cada ameaça da polícia mais palavras de ordem surgia: “Não Passarão, Não passarão”. Os defensores públicos estavam com os manifestantes informando que iam ficar do lado do movimento. Até que finalmente a polícia veio comunicar que iria começar a operação e pedindo que retirassem as crianças e idosos, o desespero tomou conta de alguns manifestantes que pegaram paus e começaram a bater nos escudos e nas barricadas. Um barulho ensurdecedor mostrava que a resistência poderia chegar ao confronto. Mesmo sabendo que os 300 homens da polícia tinham equipamento superior e treinamento, os ocupantes estavam irredutíveis na sua convicção. A policia teve que recuar.
O sol de rachar não dava trégua, a fome começava a bater nas barricadas. Apesar do aparente recuo dos policiais era preciso manter a posição. Um prato de comida foi dividido entre 3 ou até 4 pessoas. A cotinha do dia anterior quase não dava pro tanto de gente disposta a lutar. Até mesmo as crianças brincavam e vestiam-se pro embate, na esperança de que aquilo tudo fosse apenas brincadeira. As 15 horas, veio a noticia oficial do comandante da polícia militar, o juiz retirou a ação, a polícia ia se retirar e pedia que os ocupantes removessem as barricadas. As barricadas que fecharam as ruas abriram o caminho.
A luta pela Terra Livre por um novo amanhecer
O rumo dos ventos parece realmente ter mudado após as mobilizações de rua no mês de junho. Não dá pra depois de lutar pelos nossos direitos, ver uma população ser despejada porque luta por direitos. Se no transporte a luta é pela Tarifa 0, na moradia a luta deve ser pelo Despejo 0. Ninguém que não tem um lugar pra ser chamado de lar, poderia ter a calçada como espaço de descanso. Os movimentos precisam aprender com esse movimento que não dá mais pra recuar, não dá mas pra apenas sair, não dá mas pra deixarmos de lado nosso direito de auto-defesa contra um Estado que extermina nosso povo pobre trabalhador e sua juventude.
O movimento estudantil e de juventude cumpriu um papel fundamental na comunicação, nas barricadas e na experiencia inclusive anterior de vários militantes da comissão de apoio do movimento Terra Livre, não basta-se travestir de popular, tem que com humildade, convicção ideológica e do papel dos governos contribuir com sua experiência na luta do movimento popular de massas.
A luta pela terra Livre por um novo amanhecer não teve sua guerra vencida. Mas teve uma grande e importante batalha conquistada. Não é qualquer coisa, fazer com que quase todo o batalhão de choque,cavalaria, helicóptero seja mobilizado, preparado, armado em bairro de periferia e tenha que recuar. Não é qualquer coisa, sem nenhum parlamentar com peso social um movimento  e sua brilhante advocacia fazer um juiz suspender  sua própria decisão no final de semana anterior.
A prefeitura mais intolerante ter que tolerar a vitória de um movimento social organizado. Como bem lembrava Florestan Fernandes “contra a intolerância dos ricos a intransigência dos pobres”, aqui a frase foi atualizada para “Contra a intolerância do poder as barricadas pela Terra Livre por um novo amanhecer”.
*Vinicius Oliveira é da nova organização do PSOL, militante do movimento popular Terra Livre e ocupante por um Novo Amanhecer.

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