As FAA vão fichar a turma da Zona Sul?

Após “fichamento” de pobre, militares deveriam fichar sonegador rico no Rio
Leonardo Sakamoto
24/02/2018 03:26

Homem é fotografado junto com identidade. Foto: Pablo Jacob/Agência O Globo
Moradores de comunidades pobres da Zona Oeste do Rio de Janeiro foram ”fichados” por militares nesta sexta (23). Parados de forma aleatória (aleatoriedade do tipo porta giratória de agência bancária), eles foram fotografados com seus documentos e eram obrigados a aguardar enquanto a Polícia Civil, à distância, checava os antecedentes criminais.
A apresentação de documentos em abordagens é prevista em lei. Mas fotografar e reter a pessoa é uma bizarrice sem tamanho. As Forças Armadas, que estão à frente da intervenção federal de Michel Temer no Rio, se justificaram dizendo que contam com amparo para tanto no decreto que autorizou o uso de militares na cidade. Pena que ”bom senso” não seja algo passível de decreto.
Teoricamente, qualquer pessoa que se sentiu constrangida por conta disso pode mover uma ação contra o Estado. Na prática, contudo, os moradores sabem que fazer isso é pedir para levantar a ira de quem calça coturno. E como são militares e não defensores públicos que estão ocupando esses territórios, melhor ficar quieto, engolir seco e tocar adiante, buscando algum conforto na memória do tempo em que a República valia alguma coisa.
O ideal seria que as Forças Armadas parassem de fazer esse tipo de abordagem. Mas considerando que não adianta pedir com educação, pois vão continuar fichando pobre, poderíamos demandar para que estendam o sistema às ruas da Zona Sul da capital carioca e da Barra da Tijuca.
Imaginem escolher ”aleatoriamente” nobres senhores e senhoras, bloquear a saída de suas garagens pela manhã, tirar uma foto de cada um, enviar para a Receita Federal e só liberar após checar se há algo contra eles por sonegação de impostos, tanto no que diz respeito à pessoa física quanto aos recursos devidos por suas empresas. Encontrado algum ”antecedente”, eles seriam conduzidos para esclarecimentos até o escritório da Receita mais próximo. Exagero? Não, reciprocidade.
Não importa que milhões em dívidas já foram renegociados no último Refis, abençoado por Temer enquanto ele angariava votos na Câmara dos Deputados para salvar seu pescoço da guilhotina da Lava Jato. Se as forças de segurança sempre consideraram que um antecedente criminal marca para sempre a pessoa pobre, mesmo que ela tenha cumprido sua dívida para com a sociedade, o mesmo deveria valer para quem sonega milhões que deveriam ter sido usados para custear hospitais e pagar professores.
E isso poderia ser estendido para quem não paga dívidas trabalhistas. Nesse caso, talvez falte efetivo, sendo necessário chamar reservistas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
O número de moradores de bairros ricos que cometem crimes é tão pequeno em comparação ao total quanto o de moradores que cometem em bairros pobres. Já que o poder público quer aplicar um remédio que tolha direitos de forma generalizada de um lado, que aplique do outro também.
A desigualdade é nociva porque dificulta que as pessoas vejam a si mesmas e as outras pessoas como iguais e merecedoras da mesma consideração.
Ao mesmo tempo, há a percepção (correta) de que o poder público existe para controlar os mais pobres e servir aos mais abonados. Ou seja, usar a polícia e a política a fim de proteger os privilégios do segundo grupo (que desfrutam do que a Constituição Federal tem de melhor em direitos para oferecer), usando violência contra o primeiro, se necessário for.
Dizer que isso é um ataque frontal às liberdades individuais é chutar um cachorro que já está morto há tanto tempo que entrou em decomposição, fedendo amplamente. O totó, para quem não se lembra, se chamava Democracia.

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