04.EDUCAÇÃO

Educação

Educação
“A educação sozinha não transforma a sociedade,
sem ela tampouco a sociedade muda.”
Paulo Freire


A Terra Livre é uma organização que desenvolve suas ações em quatro estados do Brasil, organizando os trabalhadores, a juventude e os excluídos do campo e da cidade na luta por uma nova sociedade (Manifesto. Mais informações: http://www.terralivre.org).
O movimento atua no Pantanal da  Zona Leste de São Paulo, bairro muito rico em experiências culturais, idealizadas e concretizadas pela comunidade para a comunidade.
O I Seminário Estadual do Coletivo de Educação Terra Livre tem o objetivo de reunir e apresentar algumas destas experiências,  sob a perspectiva da educação popular e refletir sobre a importância  destas experiências no processo de transformação social.
Contatos:
Adriano (11) 6306-0132 – adrianosantosabreu@hotmail.com
Thaís (11) 8582-3119 – thaisvimi@gmail.com
Comissão Organizadora:
Adriano, Narcinaide, Thaís, Vagner e Verônica
Dia 27 de Setembro
Das 8h às 19h*
Local: EMEF Armando C.Righetti
Rua Cordão São Francisco, 977 (próx. à estação Itaim Paulista – linha F da CPTM)


Textos do Caderno do seminário

“Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho,
os homens se educam em comunhão”
Paulo Freire
Sobre a Terra Livre…
O movimento Terra Livre é organizado por trabalhadores do campo e da cidade, que além das transformações econômicas e sociais na vida dos trabalhadores e trabalhadoras, sabe que é necessária uma profunda mudança educacional e cultural na atual sociedade. Nós precisamos romper com a cultura hegemônica, que prega a competição, o individualismo, o preconceito e a desunião entre o nosso povo.
Como Este Caderno Foi Produzido?
Nós, do Coletivo de Educação Terra Livre, valorizamos muito o processo de construção deste seminário, buscando envolver a todos e todas neste processo, na medida do possível. Por isso, cada texto foi produzido pelos próprios grupos que realizam cada atividade. A maioria dos textos foi produzido através da sistematização de idéias de discussões muito ricas.
Com esta proposta, esperamos que já durante a construção do texto cada grupo refletisse sobre sua atividade como uma possível experiência em educação popular, e já se sentisse parte do seminário.
Neste caderno há também um texto que é uma produção coletiva, uma amarrado de idéias, sobre o conceito de Educação Popular para muitos dos que participaram de alguma forma do projeto e para o Coletivo.
Thaís Miranda
Coletivo de Educação Terra Livre
Nosso conceito de Educação
Quando falamos em educação, muitas vezes pensamos em um prédio, com salas, cadeiras, lousa, professor. Educação, não se limita à escola. Também somos educados em nossas famílias, nos diversos lugares que freqüentamos, em coisas que vemos, ouvimos, em nossas leituras. Enfim, educação é toda a nossa cultura, é o processo que nos faz como somos.
A Escola
A escola é reconhecida como a principal instituição educacional – corresponde à educação formal”. Esta instituição tem um papel fundamental na nossa formação. De um modo geral, os conteúdos ensinados na escola – especialmente nas escolas públicas, ou seja, aquelas voltadas às “massas” – são o suficiente apenas para formar trabalhadores, e não seres humanos críticos. A “crise” no sistema público de ensino não é à toa: a política educacional foi e é ainda pensada pelas elites, e as elites sabem que informação é poder… por isso, às massas, trabalhadores que seguem ordens apenas, basta saber ler ordens simples, nomes de ônibus, outdoors.
Informação é poder: se todos questionarem tudo o que veêm e vivem, vão perceber que as injustiças que nos afligem não são mero acaso. Vão perceber que a pobreza de muitos é conseqüência da riqueza de poucos. Vão perceber que o mundo é divido em duas classes: aqueles tem apenas sua mão de obra para vender e aqueles que tem os meios de produção, e vivem da exploração do trabalho dos primeiros. Vão perceber que a miséria é inevitável e necessária no sistema capitalista (quanto maior a fila de desempregados desesperados por trabalho, menores os salários).
Para além disso, a escola não tem apenas a função de (não) passar conteúdos: ela passa também valores. Na escola que temos hoje, aprendemos que temos que obedecer, aprendemos a formar fila, aprendemos a esperar, aprendemos que não sabemos nada – os professores é que sabem tudo.
A palavra “aluno” tem origem do latim, em que “a” corresponde a “ausente ou sem” e luno, significa “luz”. Portanto, aluno quer dizer sem luz, sem conhecimento. Na escola, somos como “vasilhas vazias”, a serem preenchidas pelo conhecimento do professor. Aprendemos que não sabemos de nada, que só nos resta seguir o fluxo.
Como podemos questionar qualquer coisa, se não sabemos de nada? Como podemos criar se só seguimos o fluxo?
A educação que recebemos na escola é uma educação que nos molda para a vida na sociedade capitalista, em que educado é aquele que aperta parafusos, sorri para todos, não questiona sua condição de explorado, não se coloca contra isso em suas ações. Na escola, não aprendemos que quem faz a história e o mundo são os homens e mulheres comuns, homens e mulheres de carne e osso, somos nós. Não aprendemos que somente nós, podemos mudar o mundo. Não aprendemos que esta deve ser uma luta de todos nós, e só pode ser concretizada através de muita luta, e em coletivo.
Cultura
Quando falamos em cultura, pensamos apenas em determinados tipos de música, teatro, literatura, coisas restritas a determinados lugares e pessoas e que podem ser vendidas. Quem não tem acesso a estas coisas não tem cultura?
Nos esquecemos de que cultura é tudo o que somente nós, seres humanos, produzimos. São nossas crenças, comportamentos, valores, instituições, regras morais. Cultura é tudo aquilo que identifica cada grupo de pessoas.
Acontece que temos nossa cultura massacrada, os meios de comunicação determinam o que temos que ouvir, vestir e discutir. Assim, cada vez menos, os grupos tem coisas próprias, que os diferenciam dos demais. Ficam frágeis, pois deixa de existir uma identidade que una as pessoas.
Acreditamos que manter a cultura de um povo é uma forma de resistência e poissibilita criação. É necessária uma cultura popular que rompa com a lógica do consumo e que esteja dentro das lutas emancipatórias de nosso povo.É por isto que acreditamos que Educação passa pelo resgate da cultura de cada comunidade: coletivos fortes e unidos são mais difíceis de enganar e explorar.
A Educação que Queremos
Defendemos a Educação Popular: uma educação feita pela classe trabalhadora para a classe trabalhadora, do povo para o povo. A finalidade desta educação é a construção da sociedade socialista pelo poder popular.
Adonis, Adriano, Edna, Matuza,
Narcinaide, Thaís, Vagner


Experiências
O Fórum do MULP
Há 7 anos, às 10hs da manhã de todo o segundo domingo do mês, acontecem os fóruns do MULP, onde são discutidos os mais diversos temas. A escolha e apresentação do tema é realizada pelos próprios participantes do fórum. Participam deste espaço não apenas moradores do bairro, mas também pessoas de vários lugares de São Paulo, cidades e até de outros países.
Vagner,  Thaís
A Experiência de
Participar do Fórum
Na minha opinião, o fórum de formação política, hoje com a mudança do ENEM, é mais importante do que o cursinho pré-vestibular, e indispensável na construção de uma sociedade melhor.
No fórum nós temos um debate aberto e sincero, tendo a oportunidade de crescimento e consolidação política. Na minha vida o fórum me deu direção.        Consigo olhar para o futuro e enxergar o quanto eu posso ser útil em uma mudança ideológica.
Quando eu cheguei, há seis anos atrás, e ouvi o discurso do Marzeni e do Ronaldo consegui entender o quanto o fórum era importante e revolucionário.
Formamos pessoas com opinião, cada uma delas pode mover milhares, são essas sementes que vão brotar em um futuro próximo e vão florescer em uma sociedade igualitária e melhor.
Márcio Félix
22/09/2009
A Feira Cultural
Origem: uma idéia
Feira Cultural do Pantanal foi criada a partir de uma idéia. Sua idealizadora, Edna, estava cozinhando e pensou: “porque não fazer uma feirinha cultural?”.        Ela foi então buscar apoio com Vagner e Ronaldo, porque são pessoas que estão sempre pensando em coisas para a comunidade.
Há muitas pessoas desempregadas no Pantanal. E há muitos artistas.
A feira seria um espaço onde as pessoas poderiam montar seu próprio “negocinho”, mostrar seus talentos. A idéia seria juntar todos para mostrar seu trabalho e gerar uma renda.
“Saldo” da feira!
A partir da feira, algumas pessoas passaram a se interessar por artesanato, e passaram a explorar possíveis habilidades. Na feira, muitas pessoas do bairro se encontram, e há quem venha de fora, convidado por moradores, para ver os trabalhos.
A Feira Cultural valoriza o que é do Pantanal, valoriza as pessoas e o que elas produzem. Por exemplo, a feira abriu espaço para o Hip Hop mostrar seu trabalho e os benefícios que este movimento traz para seus participantes.
A feira cultural é diferente porque tem dança, comida, artesanato, coisas feitas por moradores do Pantanal, que trazem a história de cada um e de um coletivo. A construção da feira valoriza as relações entre as pessoas, requer comunicação, articulação e organização entre os moradores para acontecer.
Edna, Thaís
A Comissão de Negociação
A Comissão de negociação é a parte mais organizada do movimento na luta por moradia. Esta comissão é aberta e é tirada durante assembléia geral.
Cabe à comissão buscar informações sobre as condições geográficas e políticas, discuti-las e refletir e sobre elas e repassá-las aos moradores. Para isto os membros da comissão reúnem-se periodicamente.
É também função da comissão coordenar assembléias, propondo a construção de encaminhamentos.
A Comissão é responsável pela intermediação do diálogo da população com o poder público, levando os posicionamentos discutidos em assembléias para os espaços pertinentes. Para cumprir bem estas funções, este grupo de pessoas deve ser capaz de identificar os oportunistas e aqueles que realmente estão comprometidos com a luta, os diferentes grupos que são atores deste processo e seus reais interesses.
Assim, durante este processo, a partir da prática e das discussões, os membros da comissão tem a possibilidade de começar a distinguir as relações e interesses que existem na luta de classes.
Thaís, Vagner
Cirandas
O Coletivo Candeeiro foi responsável pelo Curso de Formação de Educadores Populares Infantis, na Universidade de São Paulo, e convidou movimentos populares para participar deste curso – o MST, o MTST e a Terra Livre, que convidou o MULP (movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal). Do Pantanal, participaram do curso Verônica, Sirlene, Rita de Cássia, Eunice e Vagner.

O “Nascimento” das Educadoras Populares
“Quando iniciamos o Curso de Formação de Educadores Populares Infantis não sabíamos o que era Educação Popular, para quem e aonde ter a Educação Popular. Tudo era novo. Os movimentos, os acampamentos, os assentamentos, ciranda, as místicas, até o espaço da Universidade era novidade. Com o curso descobrimos nossa identidade, passamos a ter uma percepção da nossa comunidade e de nossas crianças. Encontramos as respostas de perguntas que achamos que nunca seriam respondidas. Depois do período de formação nascem as novas educadoras populares.” (Verônica)
Da idéia para a prática
A partir da proposta de um Trabalho de Conclusão de Curso, as educadoras do Pantanal pensaram em colocar em prática a educação popular por meio das cirandas. A proposta de realizar as cirandas durante as assembléias de moradores surgiu naturalmente, porque a formação dos educadores já tinha relação com os movimentos populares que os indicaram.
O Contexto das Cirandas
Para falar das Cirandas, é preciso falar das assembléias de moradores. Nestes espaços são discutidas as necessidades dos moradores – no momento atual, a principal preocupação é a desapropriação de 5 mil famílias para a construção de um parque. Este é um assunto que incomoda as crianças também, e nas cirandas, elas tem a oportunidade de se expressar com relação a isso. Para isto, as educadoras abrem com as crianças espaços diálogo direto ou com a intermediação de desenhos e brincadeiras.
Contudo, assim como as dificuldades, as mobilizações dos adultos também podem ser percebidas pelas crianças. Quando isto é trabalhado com elas durante as cirandas, as crianças mostram compreender a importância da atuação dos adultos no sentido de lutar por suas casas e melhorias na comunidade, mesmo sem ter muita clareza do que está acontecendo.
As Cirandas
Em uma das cirandas realizada durante uma assembléia do movimento, as crianças ilustraram em seus desenhos a assembléia e seus pais participando, indicando, mesmo sem saber muito, que estão ali por conseqüência de seus pais estarem. A partir daí, é importante discutir com as crianças, de forma ilustrativa, a importância de seus pais estarem lá. Por isto, apesar de suas limitações e dificuldades compreendemos a Ciranda como um importante espaço de formação para as crianças que dela participam.
Verônica, Thaís, Vagner
O Cursinho Pré-Vestibular do MULP
O Cursinho Por sua Coordenação
O Cursinho Popular Pré-Vestibular do MULP (Movimento de Urbanização e Legalização do Jd. Pantanal) é mais do que um curso de “macetes” dos processos seletivos, públicos ou privados. O Cursinho é um espaço de produção de novos valores, hábitos e cultura. Assim, a aprendizagem não se limita à entrada nas universidades: tem como objetivo a ocupação das instituições de ensino e de trabalho, com perspectivas de romper as barreiras estabelecidas nestes espaços de forma individual e coletiva, questionando a lógica da  fábrica de idéias que dá amparo ao mercado de trabalho.
O Cursinho do MULP surgiu a partir do Fórum do MULP, há três anos, e já teve mais de 25 alunos ingressantes na Universidade pública e particular. Em 2006, foram 7 selecionados pela Educafro e 3 pelo ProUni. Em 2007, duas alunas ingressaram no curso de Pedagogia na Faculdade de Sumaré, uma na FATEC, um no curso de Letras na Mackenzie, e quatro na USP Leste, no curso de Ciências da Natureza. No ano de 2008, abrimos espaço nas CEFETs, FATECs e em Universidades particulares através do ProUni, com a entrada de mais estudantes nestas instituições.
O Cursinho pelos Estudantes
O cursinho do MULP é diferente dos demais cursinhos porque conta com professores voluntários, ou seja, professores muito interessados e com muita vontade. O fato de ser de fim-de-semana também contribui para a qualidade das aulas, porque as pessoas que se dispõe a estudar no sábado ou domingo estão mesmo muito interessadas e vem com muita força de vontade. Por isso, os professores gostam de vir dar aulas. É um espaço de solidariedade, em que se faz o bem – os professores e os alunos, uns para os outros. Muitos estudantes expressam desejo em voltar depois para dar aulas no cursinho.
A Participação dos Estudantes
No cursinho, são relembrados muitos conhecimentos da escola. Na escola, porém, não há aulas; os professores utilizam uma apostila que já vem pronta, está sendo formada uma geração de analfabetos. É isso que o governo quer: alunos burros e sem capacidade de crítica.
A partir do Cursinho e do Fórum, aprende-se a ter uma visão crítica, a analisar os fatos a partir de uma compreensão do nosso sistema social, do nosso governo. Nossa sociedade é dividida em duas classes: ricos e pobres – os ricos querem nosso conhecimento, mas não querem que saibamos os deles. Se não estivermos cientes disto e dissermos “Amém” seremos manipulados.
Coord. do Cursinho, Dayane Ap. Morales,
Alline Evelyn, Jadislene C. Rocha,
Cristiane B. Cruz, Lucimara B. Rocha,
Valdeci Marques, Patricia S. Pereira,
Joamária Silva, Mike Alves, Thaís
Precisamos De Você.
Brecht
Aprende – lê nos olhos,
lê nos olhos – aprende
a ler jornais, aprende:
a verdade pensa
com tua cabeça.
Faça perguntas sem medo
não te convenças sozinho
mas vejas com teus olhos.
Se não descobriu por si
na verdade não descobriu.
Confere tudo ponto
por ponto – afinal
você faz parte de tudo,
também vai no barco,
“aí pagar o pato, vai
pegar no leme um dia.
Aponte o dedo, pergunta
que é isso? Como foi
parar aí? Por que?
Você faz parte de tudo.
Aprende, não perde nada
das discussões, do silêncio.
Esteja sempre aprendendo
por nós e por você.
Você não será ouvinte
diante da discussão,
não será cogumelo
de sombras e bastidores,
não será cenário
para nossa ação

Programação:
27 de Setembro
08h00 – Mística
08h30 – Mesa: O que é Educação Popular?
12h00 – Almoço
13h30 – Apresentação das experiências Culturais do Pantanal (aprox. 20 min cada)
- Fórum do MULP
- Cursinho do MULP
- Assembléias e reuniões de moradores
- Feira Cultural
- Movimento Hip Hop
- Cirandas
17h30 – Discussão: O que estas experiências tem de Educação Popular?
19h – Encerramento

Comments are closed.

Terra Livre - movimento popular do campo e da cidade
www.terralivre.org | secretaria@terralivre.org

(c) Copyleft: É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados.